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Entrevista: Fábio Malini sobre as redes sociais, as manifestações e transparência no Brasil

Fabio Malini

(Image: Grupo de Estudo de Fotografia da UFES)

August 14, 2013

“O governo tem que criar espaços de relação de diálogo direta. Ou seja, que a presidenta, seus ministros e toda a tecnocracia de estado possa estar em contato direto, em tempo real...com aqueles que estão reivindicando diferentes posições políticas, diferentes demandas.”

Como as redes sociais afetam a participação política no Brasil? Fábio Malini, um pesquisador que estuda padrões de dados nas redes sociais brasileiras, conversou com Rachel Glickhouse do AS/COA Online sobre como o Twitter está mudando a interação entre os brasileiros e o governo e o papel das redes sociais durante as manifestações que aconteceram no Brasil em junho. Um dos coordenadores do Laboratório de estudos sobre Internet e Cibercultura (Labic) na Universidade Federal do Espírito Santo, Malini utiliza big data e a visualização de dados para investigar a evolução das redes sociais no Brasil. Após as manifestações, Malini observou mudanças em como os brasileiros falam sobre política na rede. Ele acredita que o governo pode tomar medidas para interagir com os contituintes nas redes sociais. “Hoje tem 90 milhões de pessoas em rede social. É uma numero muito grande de pessoas, é quase o tamanho do eleitorado brasileiro,” disse Malini.

Cartografia do Labic com as menções sobre Dilma Rousseff. Clique para ampliar.

AS/COA Online: Você poderia falar um pouco sobre os projetos do Labic relacionados com a Presidente Dilma Rousseff nas redes sociais e as hashtags dos protestos em São Paulo?

Fábio Malini: O laboratório se chama Labic e desenvolve uma atividade de coleta de material de internet de conteúdo público que está na internet desde 2012. O foco do trabalho é fazer cartografias políticas e, a partir de maio de 2012, a gente iniciou um trabalho para buscar cartografias que fossem cartografias de conflitos, polêmicas envolvendo questões políticas no Brasil e também no exterior. Porque também a gente não tinha na época convicção de que grandes manifestações no Brasil poderiam ocorrer dado a questão do país passar por um grande processo de expansão econômica, expansão de direitos sociais, etc.

Então a gente foi, durante todo 2012, coletando o que talvez seja a genealogia da própria crise política brasileira. A gente foi coletando grandes protestos que aconteceram no Brasil envolvendo questões indígenas, julgamento do caso mensalão, as marchas que aconteciam no Brasil e tantas outras controvérsias que aconteciam na rede. Em junho deste ano, a gente já tinha uma maturidade na extração dos dados e também na visualisação dos dados. Então com o surgimento dos protestos que ocorrem em São Paulo, que é o primeiro eixo destes protestos, a gente, já com a experiência de extração dos dados, percebeu que por um lado você tinha a manifestação de rua e por outro lado existia uma conexão direta com a crítica aos governos de diferentes estados brasileiros e também o próprio governo federal.


Read the interview in English.


A gente começou a extrair os dados da rede, sobretudo do Twitter, menções relacionadas a presidenta Dilma, ao governador Alckmin, ao prefeito Haddad que são figuras políticas e também as hashtags que eram produzidas durante as manifestações. E ali tinha uma curiosidade: por um lado você tinha uma protesto que era local, em São Paulo, referente à questão do aumento da tarifa do transporte coletivo — e que não se resumia a uma hashtag, a hashtag #passelivre, a hashtag contra o aumento; ao contrário, era povoado de muitas hashtags. E por outro lado, você tinha também um outro componente de uma certa indigência política, da política como se realiza no Brasil que não conseguia compreender o que ocorre em São Paulo, a forma de lidar com a manifestação era de acusá-los de vandalismo.

Então, sobre essa extração da Dilma, a gente continua monitorando as menções relacionadas a presidenta. Quando a gente faz o primeiro corte dos dados que é um volume grande de publicações—são 170mil tuítes, que representava muitos dos perfis e dos sujeitos que estão na rede no Brasil, desde os setores midiáticos tradicionais aos próprios perfis dos movimentos sociais—a gente percebia que ali tinha uma curiosidade. Que, em geral, quando a gente faz visualização envolvendo algum político, existe sempre um comportamento padrão na rede: a rede contra o político e a rede favorável ao político. E o que acontecia era que existia uma terceira via que trazia pautas bastante diferentes do que esses dois outros grupos. E essas pautas tinham conexões muito diretas com as manifestações de rua, sobretudo em São Paulo. Também você identificava uma representação política bem ampla de diferentes áreas do Brasil que é um país continental. 

Então de um lado você tinha um elemento político que era a aglutinação de perfis nas redes sociais, que não se posicionavam nem contra nem a favor à Dilma, mas se colocavam como muito próximo a pauta muito diversificada, porém concreta, dos movimentos. Por outro, tinha a dinâmica de territorialização desses movimentos. Ou seja, o movimento em São Paulo virou uma coisa, o movimento em Vitória era outro, o movimento em Recife, o movimento em Salvador, etc. Que tinham elementos comuns, mas também tinham pautas muito locais, pautas bem territorialisadas. Muito associada por um lado à crítica aos gastos para se fazer a Copa do Mundo, grandes eventos, por outro, ao padrão de desenvolvimento que o Brasil alcançou. Por outro lado a necessidade, o desejo por mais mobilidade urbana, que se adeque as cidades não somente aos carros, mas também a diferentes formas de convívio na cidade. Sobretudo a luta contra a privatização de espaços públicos.

Ele tem uma dimensão transversal nacional, e por outro lado você tem pautas muito locais acontecendo, e o eixo que muda nesse momento a gente está vivendo um eixo de mudança, um eixo que saiu de São Paulo e foi para o Rio. Porque o Rio de Janeiro é a cidade que talvez represente melhor essa intensidade de conflitos porque está sendo palco de grandes eventos, e a estrutura da cidade está sendo refeita. A cidade está meio desmontada em função desses grandes eventos e também por onde passam grandes acordos políticos no Brasil. Então é bem interessante como essa mudança de eixo está acontecendo. E é interessante porque na nossa análise mais de milhões de tuítes, a gente identificou que a hashtag no final de junho, início de julho estava mais forte era a #protestoRJ. É curioso que hoje a gente vê que essa hashtag, esse síntoma que a gente verificava a 20 dias atrás, ele se tornou o próprio diagnóstico da crise política no Brasil. Essa crise política mudou de eixo de São Paulo para o Rio, e no Rio ela ganha elementos que são elementos novos como, por exemplo, a luta pela paz, mas não a paz contra o vandalismo, mas contra a polícia.

AS/COA Online: Depois dos grandes protestos, o governo anunciou que vai montar um “gabinete digital” para monitorar e pautar o debate virtual. O governo também lançou sua própria versão de Facebook chamado de Observatório Participativo. Qual é a sua opinião sobre isso?

Malini: Eu acho que os lançamentos dessas duas iniciativas tiveram um impacto bem diferente em termos de avaliação, até toda uma cultura da ironia dizendo que o Participatório na verdade era um “participatroll” ou um “participotário.” Foi talvez naquele momento o governo olhou para dentro e disse “o que nós temos de possibilidade de diálogo com as redes sociais”, até por conta que as redes sociais se tornaram o campo de articulação e mobilização política das ruas. Eu acho que o Participatório não tem muito futuro. O gabinete digital me parece que pode ser uma boa solução. Porque o gabinete digital que vem de uma experiência lá de Porto Alegre, e Porto Alegre é uma cidade importante no cenário não só nacional, no cenário global porque tem um mística forte de participação popular. Então por um lado você tem a possibilidade de concessão de diálogos que talvez o governo não consiga compreender, que não se trata de pautar a sociedade. Eu acho que esse talvez é o elemento de crítica ao gabinete digital como está pensado: que talvez não é de pautar a sociedade, mas de utilizar os metadados que são produzidos na internet como um espaço, como um input para console de políticas públicas no Brasil.

Me parece que a experiência de Porto Alegre ela pode resignificar essa relação do governo com os perfis de internet. Acho que o governo federal talvez seja o governo que está tentando mais criar relações, criar soluções, dar algum tipo de resposta do que até os governos locais. Mas me parece que o Participatório não vejo muito futuro nele, mas um gabinete digital me parece que pode ser um modelo replicável que vem de Porto Alegre, pode sim se for utilizado como uma política pública de governo aberto, no sentido de dar mais transparência nos gastos, criar políticas mais inteligentes para orientar atuação governamental e a relação com os movimentos, parece que pode ser um campo assim interessante.

Então eu vejo com bons olhos, e vejo também que muitos ativistas também veem com bons olhos. Claro que ao ser comunicado num contexto de crise, soa um pouco como um dispositivo que seria um dispositivo de vigilância da internet. Mas me parece que não se trata muito da intenção deste governo.

AS/COA Online: O que o governo poderia fazer nas redes sociais para esse gabinete digital dar certo?

Malini: Eu acho que a primeira coisa é pensar que as pessoas que circulam na rede, elas por um lado são produtoras de informação, essas pessoas que estão na rede, mas por outro lado também elas são sujeito político. Então, quando o governo adota concretamente a ação, diálogo aberto na rede, ele também vai ter que se adaptar a essa realidade de rede. É uma realidade em que não há possibilidade alguma de construção de uma verdade única. Então concretamente o governo tem por um lado fazer com que se criem espaços. Sobretudo espaços de multimídia, de relação de diálogo direta. Ou seja, que a presidenta, seus ministros, e toda a tecnocracia de estado possam estar em contato direto em tempo real, ao vivo em determinados casos, com aqueles que estão reivindicando diferentes posições políticas, diferentes demandas.

Por outro lado, o gabinete tem de entrar num processo de ampliação da transparência da informação. O Brasil tem um estado que ainda é muito fechado, não só o executivo: o judiciário, o legislativo, onde acontecem muitos casos de corrupção. Uma das soluções para isso é tornar os gastos públicos cada vez mais transparentes, e também abrir os dados de diferentes setores para que esses dados possam ser objetos de uma inteligência coletiva está na própria internet. Um terceiro caminho é a utilização da opinião pública que acontece sobretudo nas redes sociais como um campo estratégico de desenvolvimento de respostas rápidas às demandas políticas sociais que surgem. Ou seja, quando as pessoas na internet fazem campanha contra a violência indígena, elas querem uma resposta muito imediata ao combate a violência contra os povos indígenas. Então essa política em tempo real me parece que deve ser concretamente a função de um gabinete digital, se não ele vira um espaço só unilateral, onde o governo fala e escuta menos.

AS/COA Online: Os brasileiros interagem com a política de um jeito diferente por causa das redes sociais hoje em dia?

Malini: Sem dúvida. Os perfis de redes sociais têm um papel muito importante, porque têm se popularizado muito entre os brasileiros com o uso do telefone celular, com o acesso à internet. Tem se popularizado muito o acesso à internet através de laptop e computadores desktop. Então as pessoas têm mudado o hábito de mídia no Brasil, em que a pessoa ficava assistindo televisão durante horas, para ficar cada vez mais em frente ao computador, ou usando internet através do celular. E isso então muda a política quando as pessoas estão vendo que em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro, em Brasília está acontecendo protesto, elas de certa maneira percebem aquela comoção, são encorajadas, empoderadas a fazerem os seus protestos em seus espaços. No dia 20 de junho houve protestos em mais de 10 mil cidades no Brasil.

Então essa alteração tem muito a ver com o fato de que as pessoas estão conectadas em tempo real na rede, e essa mudança traz uma mudança de mentalidade política. Então hoje, quando as pessoas estão acessando a internet no Brasil, você tem uma população gigantesca— tem 90 milhões de pessoas em rede social. É uma número muito grande de pessoas, é quase o tamanho do eleitorado brasileiro. Estar conectado constantemente a pessoas que falam de política, que fazem críticas ao cotidiano da cidade, faz com que a mudança política ganhe outro tipo de lastro. E de certa maneira coloca um componente novo na cena midiática.  O Brasil, por exemplo, nas manifestações faz um sucesso enorme chamado Mídia Ninja. É a realidade de muitos jovems que pegam o telefone celular e fazem vídeo streaming para internet dos acontecimentos de rua. E a audiência desses vídeos é uma coisa absurda; há vídeos com 70 mil pessoas assistindo em tempo real. Então isso gera um campo muito grande de influência, e essa influência acaba afetando o modo como se faz política no país.

AS/COA Online: Em uma entrevista você disse que “O Twitter se converteu no sistema nervoso de nossa sociedade, e devemos aprender a utilizá-lo.” Pode explicar isso?

Malini: A gente tem percebido em estudos que articulam política, Twitter e rua que existe uma seguinte equação. A rua é uma grande caixa de ressonância e ela produz muita emoção, ela é transmitida através de diferentes canais de redes sociais, como por exemplo o Twitter. E essa emoção acaba promovendo um processo de comoção pública ao vivo. Essa comoção pública ao vivo acaba ecoando porque as pessoas vão espalhando essa comoção, vão compartilhando a comoção como se fosse um sistema nervoso em que um neurônio se liga a outro, muito em função da emoção e da comoção que se produz na rua. E isso acaba motivando mais pessoas para estarem nas ruas ou apoiando as ruas. E mais pessoas estando nas ruas significa mais conteúdo e emoção que é enviado pela internet, e isso vira um ciclo extremamente neural, extremamente emocional que constitui o elemento novo até da política.

No caso dessas manifestações, que não parece ser só um caso brasileiro, parece ser um caso global, essa relação entre Twitter e rua por exemplo, amparado pela forte emoção, acaba gerando um ciclo de comoção muito baseado no espalhamento, no contágio constante entre os perfis que atuam na rede e na rua ao mesmo tempo. E com isso a emoção entra no campo da política. No Brasil por exemplo, um dos resultados dessa manifestação foi que 75 por cento dos royalties do petróleo ganhos pelo estado brasileiro serão destinados para política de educação, que era uma coisa que estava muito distante da possibilidade do congresso nacional aprovar. Foi aprovado por conta dessa pressão popular, dessa forte emoção que tinha como pauta, uma das pautas, um maior investimento na educação.